Que semana difícil — e vergonhosa — para um esporte pelo qual milhões de pessoas são apaixonadas.
Mais um caso de racismo envolvendo Vinícius Júnior. O episódio ocorreu na última terça-feira (17), durante a partida entre Real Madrid e Sport Lisboa e Benfica, pela Liga dos Campeões da UEFA, no Estádio da Luz, em Lisboa. O atacante brasileiro denunciou ter sido chamado de “macaco” por Gianluca Prestianni, atacante do Benfica.
Para piorar, o jogador deixou o campo aplaudido por parte da torcida. Como se não bastasse, algumas manifestações posteriores foram igualmente preocupantes. Treinadores minimizaram o episódio, tratando o caso como algo menor, como se o combate ao racismo não fosse uma pauta urgente e permanente no futebol.
Até mesmo Luisão, ídolo do Benfica, foi alvo de ataques por ter defendido Vini Jr. Onde está o respeito? Alô, Fifa: até quando a omissão será regra?
Na Copa do Brasil, outro episódio lamentável. A partida entre Vasco da Gama-AC e Velo Clube, realizada na quinta-feira (19), pela primeira fase da competição, expôs uma cena difícil de acreditar.
Jogadores do Vasco-AC exibiram os números das camisas de três atletas que estão presos sob acusação de estupro, tendo mulheres como vítimas. Não se trata apenas de “suspeitas” ignoradas pelo clube, mas de homens que estão privados de liberdade por decisão judicial.
E o que torna a situação ainda mais grave: o goleiro envolvido em um caso de repercussão nacional estava em campo. A permanência dele na partida, diante de todo o contexto, soa como um recado preocupante — de tolerância, de normalização, de descaso. Para nós, mulheres, foi um tapa no rosto. Um soco no estômago. O futebol não pode ser espaço de blindagem para quem responde por crimes tão graves.
Para fechar a semana, nas quartas de final do Campeonato Paulista, no sábado (21), mais um episódio que escancara o problema estrutural. Após a derrota do Red Bull Bragantino para o São Paulo Futebol Clube por 2 a 1, o zagueiro Gustavo Marques, do Bragantino, atribuiu o resultado à árbitra Daiane Muniz, colocando em dúvida sua atuação de forma atravessada e insinuando que o gênero teria influência no desempenho da arbitragem.
Ao tentar se justificar dizendo que “tem mãe” e “é casado”, apenas reforçou um argumento ultrapassado e machista. Mulheres estão em todos os espaços do futebol — dentro e fora de campo: na arbitragem, na reportagem, na narração, nos comentários e na gestão. O pedido de desculpas veio, mas é preciso que haja responsabilização.
A pergunta que ecoa é: até quando vamos aceitar atitudes racistas e misóginas como parte do jogo? Não podemos normalizar o absurdo. Não é “brincadeira”, não é “provocação”. Racismo e machismo não são parte da cultura do futebol — são crimes e precisam ser tratados como tal.
Não estamos mais nas décadas de 70, 80 ou 90, quando muitos absurdos eram ignorados sob o argumento de que “faz parte”. Não faz.
E a CBF? Haverá alguma medida contra o Vasco-AC pelo gesto de exaltação a atletas presos? O goleiro continuará atuando como se nada tivesse acontecido? O silêncio institucional também comunica — e comunica muito.
O futebol precisa decidir de que lado da história quer estar.
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