Durante décadas, o Real Madrid construiu uma imagem que o diferencia de boa parte dos gigantes do futebol europeu. O clube não pertence a um bilionário, não é controlado por um fundo soberano e tampouco está nas mãos de acionistas. Oficialmente, pertence aos seus sócios.
É um modelo frequentemente apresentado como símbolo de democracia esportiva.
Mas neste domingo (7), quando mais de 95 mil associados forem às urnas para escolher o próximo presidente do clube, uma pergunta estará presente nos corredores do Santiago Bernabéu: quão democrática pode ser uma eleição em que quase ninguém consegue se candidatar?
A primeira disputa presidencial do Real Madrid desde 2006 expõe um paradoxo cada vez mais evidente dentro da instituição. Enquanto milhares de sócios têm direito ao voto, apenas uma pequena elite econômica possui condições de disputar o comando de um clube que movimenta cifras bilionárias.
Para registrar uma candidatura, é necessário ser espanhol, possuir ao menos 20 anos consecutivos como sócio e apresentar uma garantia financeira correspondente a 15% do orçamento anual do clube. Em 2026, isso representa cerca de 187 milhões de euros, mais de R$ 1,07 bilhão.
O valor deve ser sustentado exclusivamente pelo patrimônio pessoal dos integrantes da chapa. Apenas os custos para obtenção do aval bancário ultrapassam 2 milhões de euros, aproximadamente R$ 11,4 milhões. Na prática, o requisito transforma a corrida presidencial em uma disputa restrita a empresários multimilionários.
O resultado é visível. Desde o retorno de Florentino Pérez ao poder, em 2009, nenhuma candidatura conseguiu cumprir todas as exigências impostas pelo estatuto do clube. Em 2013, 2017, 2021 e 2025, o dirigente foi reconduzido ao cargo sem sequer enfrentar um adversário.
A candidatura do empresário Enrique Riquelme encerra um jejum de duas décadas sem uma disputa eleitoral efetiva e devolve ao madridismo uma cena que uma geração inteira de torcedores jamais presenciou.
Quem nasceu em 2006, ano da última eleição competitiva do clube, alcançou a maioridade antes de ver uma nova disputa presidencial no Real Madrid.
Como mundo era o mundo na última eleição do Real Madrid com dois candidatos
Quando o Real Madrid realizou sua última eleição presidencial com mais de um candidato, em 2006, o futebol e o mundo eram bastante diferentes.
- Cristiano Ronaldo ainda jogava no Manchester United e não havia conquistado nenhuma Bola de Ouro;

- Lionel Messi tinha apenas 19 anos e ainda buscava espaço entre os titulares do Barcelona;

- Kylian Mbappé tinha apenas sete anos de idade;
- O Real Madrid possuía nove títulos da Champions League. Hoje são quinze;
- O primeiro iPhone ainda não havia sido lançado;
- O TikTok, hoje uma das principais ferramentas de comunicação dos clubes com seus torcedores, sequer existia;
- Enrique Riquelme, atual candidato da oposição, tinha apenas 17 anos.
Em outras palavras, uma geração inteira de madridistas cresceu sem assistir a uma disputa presidencial no clube.
Como Florentino atravessou duas décadas sem adversários
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 2000 | Florentino Pérez vence a eleição prometendo contratar Luís Figo, então astro do Barcelona |
| 2004 | É reeleito com mais de 90% dos votos |
| 2006 | Renuncia à presidência em meio a uma crise esportiva |
| 2006 | Ramón Calderón vence a última eleição disputada do clube |
| 2009 | Florentino retorna ao poder sem adversários |
| 2012 | Estatuto endurece as regras para candidatos |
| 2013 | Reeleito sem oposição |
| 2017 | Reeleito sem oposição |
| 2021 | Reeleito sem oposição |
| 2025 | Reeleito sem oposição |
| 2026 | Enrique Riquelme força a primeira disputa eleitoral em 20 anos |
O clássico fora de campo
A comparação com o Barcelona ajuda a dimensionar o tamanho da barreira construída pelo clube madrilenho.
Embora os dois gigantes espanhóis mantenham o modelo associativo e realizem eleições diretas, as regras para concorrer não são as mesmas.
| Critério | Real Madrid | Barcelona |
|---|---|---|
| Tempo mínimo de associação | 20 anos | 10 anos |
| Garantia financeira | € 187 milhões | Cerca de € 120 milhões |
| Avalistas externos | Não | Sim |
| Última eleição disputada | 2006 | 2026 |
| Sócios aptos a votar | 95 mil | 140 mil |
No clube catalão, o aval financeiro pode ser apresentado por terceiros. Em Madri, o patrimônio deve pertencer obrigatoriamente aos integrantes da chapa.
A diferença faz com que, mesmo enfrentando crises institucionais e financeiras nos últimos anos, o Barcelona apresente um ambiente eleitoral mais competitivo que o rival.
O que R$ 1,07 bilhão representa?
O valor exigido para concorrer à presidência do Real Madrid ultrapassa R$ 1 bilhão.
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Para se ter uma ideia da dimensão da cifra, a garantia financeira exigida dos candidatos, 187 milhões de euros, equivale a cerca de 76% do valor de mercado somado dos 20 elencos da Série B do Campeonato Brasileiro em 2026, avaliados em aproximadamente 244,5 milhões de euros.
Em outras palavras, o patrimônio exigido para disputar a presidência do clube espanhol se aproxima do valor necessário para montar praticamente toda a Série B brasileira.

A exigência ajuda a explicar por que tão poucos candidatos conseguem chegar às urnas.
Florentino e o poder de uma era
Se o Real Madrid se tornou uma potência econômica global, boa parte dessa transformação tem a assinatura de Florentino Pérez.
Aos 79 anos, o dirigente acumula 66 títulos sob sua gestão, incluindo sete títulos da Liga dos Campeões. Sob seu comando, o clube ultrapassou a marca de 1,2 bilhão de euros em receitas anuais e transformou o Santiago Bernabéu em um complexo de entretenimento capaz de gerar receitas durante todo o ano. A influência de Pérez vai além dos gramados.

Foi durante sua administração que as exigências para candidatura foram endurecidas. Em 2012, o estatuto passou a exigir 20 anos de associação e a manutenção do aval financeiro equivalente a 15% do orçamento do clube.
Críticos apontam que as mudanças ajudaram a blindar o poder do presidente. Aliados argumentam que as regras garantem estabilidade institucional e evitam aventuras administrativas. Independentemente da interpretação, os números mostram o impacto das medidas: durante 17 anos, ninguém conseguiu enfrentá-lo nas urnas.
O outsider que desafia o sistema
A exceção surgiu em 2026.
Aos 37 anos, Enrique Riquelme tornou-se o primeiro opositor capaz de superar as exigências financeiras e burocráticas do clube desde o retorno de Pérez ao comando. Fundador da empresa de energia renovável Cox Energy, o empresário construiu sua campanha sobre a promessa de renovação.

Entre as propostas estão a redução das mensalidades dos sócios, a criação de novas cadeiras de temporada, investimentos em infraestrutura para associados e mudanças no departamento de futebol.
Riquelme também apostou em promessas de impacto para chamar atenção do eleitorado. O candidato afirmou possuir acordos encaminhados para contratar jogadores como Erling Haaland e Rodri, além de prometer um novo treinador para substituir Carlo Ancelotti.

As declarações geraram repercussão imediata na imprensa espanhola e transformaram a campanha em uma disputa de narrativas.
A guerra dos ídolos
Como em toda eleição, os apoios simbólicos passaram a ter peso estratégico. Riquelme reuniu nomes históricos do clube como Raúl González, Fernando Hierro, Iker Casillas e Vicente del Bosque.
Do outro lado, Florentino Pérez contou com a presença de Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos durante o lançamento oficial de sua candidatura. Mais do que apoios eleitorais, os ex-jogadores representam diferentes visões sobre o futuro do clube.
Enquanto Raúl, Casillas e Hierro simbolizam a tradição construída dentro da própria instituição, Ronaldo e Roberto Carlos remetem à era dos Galácticos, projeto que consolidou o Real Madrid como marca global.
O que realmente está em jogo
A eleição deste domingo definirá muito mais do que o próximo presidente do Real Madrid. O pleito representa um teste para um modelo de governança frequentemente apontado como exemplo dentro do futebol mundial.
De um lado está Florentino Pérez, responsável por transformar o clube na maior potência econômica do esporte. Do outro surge Enrique Riquelme, que tenta convencer os sócios de que chegou o momento de abrir espaço para uma nova geração. Mas a principal discussão talvez não esteja nos nomes dos candidatos.
A verdadeira disputa gira em torno de uma questão mais ampla: até que ponto um clube pode continuar se apresentando como uma democracia de sócios quando as condições para disputar o poder são acessíveis apenas a uma elite econômica?
No domingo, mais de 95 mil madridistas terão direito ao voto.
A pergunta que continuará sem resposta definitiva é quantos deles teriam condições de disputar a eleição.
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