Afinal, o que é pensar grande ou pequeno para um clube que já conquistou o mundo três vezes? Nos últimos anos, o São Paulo parece ter confundido as duas coisas. Pensar grande virou apostar em soluções rápidas, quase milagrosas. Pensar pequeno, que muitas vezes é o primeiro passo de qualquer reconstrução, passou a ser tratado como sinal de fraqueza.
Talvez essa seja a maior dificuldade de clubes gigantes: aceitar a própria realidade. O título da Copa do Brasil de 2023, histórico e merecido, acabou funcionando também como uma espécie de maldição silenciosa. A conquista trouxe alívio e orgulho, mas ao mesmo tempo mascarou problemas que continuaram ali, se arrastando temporada após temporada.

Reconhecer que a fase é ruim não basta. O desafio é saber lidar com ela. Hoje, a gestão do São Paulo parece oscilar entre dois extremos: ou se contenta com pouco, ou aposta em soluções mágicas. Falta o caminho do meio. Falta reconstrução.
O sacrifício da base
O exemplo mais claro aparece em Cotia. Em 2025, o São Paulo intensificou a venda de jovens da base para equilibrar as contas. William Gomes foi para o Porto, Lucas Ferreira seguiu para o Shakhtar Donetsk, Matheus Alves e Henrique Carmo acabaram negociados com o CSKA Moscou. Até Ângelo, lateral de 16 anos, foi vendido ao Strasbourg sem sequer estrear no time profissional.

Juntos, os cinco renderam cerca de R$ 220 milhões aos cofres do clube.
O presidente Julio Casares justificou as negociações como parte da recuperação financeira. Faz sentido, visto de longe. No futebol, porém, vender promessas da base para pagar contas não é planejamento. É sobrevivência. É trocar o futuro pelo presente.
E o destino desse dinheiro ajuda a explicar a sensação de curto prazo. Em 2025, o São Paulo Futebol Clube registrou receita recorde de R$ 1,085 bilhão. Ainda assim, a dívida caiu apenas R$ 40 milhões. Para quem arrecada mais de um bilhão, o resultado parece modesto.
Os números mostram crescimento, mas escancaram uma verdade incômoda: o São Paulo virou uma máquina de vender jogadores para pagar contas. O clube fatura mais, deve quase o mesmo, e entrega ao torcedor um time cada vez mais vazio daquilo que um dia foi sua maior força: a base. Enquanto isso, os meninos de Cotia continuam indo embora antes da hora. E o presente segue sendo empurrado com a barriga.
Um elenco que não aguenta
Se o planejamento para o futuro já preocupava, o presente também entregava seus sinais de alerta. Em 2025, o Tricolor registrou 49 problemas clínicos entre seus atletas, com nove cirurgias realizadas ao longo da temporada. Calleri perdeu 45 jogos. Oscar, 35. Lucas, 34.

Um levantamento interno indica que o clube terminou o ano com mais lesões registradas do que partidas disputadas.
O resultado foi uma reformulação completa no departamento médico e de preparação física ao fim da temporada. Profissionais foram desligados e a estrutura passou por mudanças. Os títulos que ficaram pelo caminho, porém, não voltam.
Bastidores em xeque
Como se os problemas dentro de campo não bastassem, os bastidores do Morumbi guardavam algo pior. Investigações da Polícia Civil passaram a apurar um esquema de comercialização irregular de camarotes em dias de shows no estádio. O caso envolve Douglas Schwartzmann, ex-diretor adjunto da base, e Mara Casares, ex-diretora de eventos e ex-esposa de Julio Casares.
Áudios revelados na investigação mostram Schwartzmann admitindo:
“Teve negócio aí que você ganhou dinheiro, eu ganhei, todo mundo ganhou, mas foi feito tudo na confiança”.

Segundo a apuração, ingressos do camarote identificado como “sala presidencial” chegaram a ser vendidos por R$ 2,1 mil durante um show da cantora Shakira, com faturamento estimado em R$ 132 mil em uma única noite. Para o Ministério Público, o estádio teria sido usado como uma espécie de “máquina de caça-níqueis” para interesses particulares.
O clube segue refém de decisões auto benéficas, que enxergam o indivíduo antes da instituição. Busca-se títulos, mas sem ótica para o futebol, o que importa, na verdade, são os resultados que interessam ao bolso. O dinheiro dita as escolhas, e o esporte, esse, vai se virando como pode.
O caso Alisson
Mas talvez nenhum caso exemplifique melhor a falta de gestão do que o de um jogador que poderia ter sido aproveitado. Em janeiro, Alisson manifestou interesse em se transferir para o Corinthians, onde reencontraria o técnico Dorival Júnior. Chegou a visitar o CT do rival. O negócio não avançou porque o Corinthians se recusou a pagar os R$ 1 milhão exigidos pelo São Paulo.
Alisson voltou. Mas o técnico Hernán Crespo entendeu que o jogador já não estava totalmente focado no clube. O meio-campista passou semanas sem ser relacionado, treinando separado e vivendo um limbo esportivo.
“No São Paulo, tem de estar bem e tentar ajudar. Quando a cabeça não está dentro do São Paulo, a ideia é ajudar para sair. Se vier para o Corinthians, não é um problema meu, é uma escolha dele. Do Corinthians, não preciso de ninguém”, disse Crespo na época.

A diretoria assistiu.
Não mediou o conflito, não tentou reconstruir a relação. Meses depois, o Fluminense apareceu e levou o jogador por empréstimo sem pagar nada à vista, valor que antes havia sido exigido do rival.
Quem vive o São Paulo desde criança sente na pele a diferença entre torcer e apenas acompanhar. Não é só de títulos que se alimenta um clube, é de saber que, mesmo nos momentos difíceis, o time tem a grandeza para não se apequenar. Hoje, o que dói no torcedor não é perder. É não saber mais o que esperar.
E foi nesse contexto de desorganização que o clube decidiu agir. Ou pelo menos tentou. Pouco depois, o São Paulo demitiu Crespo no chamado “momento certo”, como se processos de reconstrução obedecessem ao calendário, como se o tempo de um gigante coubesse na pressa do futebol brasileiro.
Minutos após a demissão de Crespo, Alisson publicou nas redes sociais:
“A verdade sempre aparece. Caráter pra mim nunca se negocia”.

A crise que se arrastava nos bastidores culminaria em janeiro de 2026. Em meio à pressão interna e ao avanço de um processo de impeachment no Conselho Deliberativo, Julio Casares acabou deixando a presidência do clube.
Entre o passado e o futuro
O retrato que fica é o de um clube que vende promessas antes da hora, perde jogadores experientes em conflitos mal administrados, convive com escândalos fora de campo e sofre com uma sequência de problemas físicos dentro dele.
Ainda assim, o discurso dos representantes do futebol, como Rui Costa, segue o mesmo:
“Me parece uma decisão que tem uma coerência de convicção”, afirma o executivo de futebol.
Agora, a aposta da vez atende pelo nome de Roger Machado. Segundo o próprio Rui Costa, a escolha pelo treinador foi conduzida por ele e pelo gerente esportivo Rafinha, que participaram diretamente da decisão de trazê-lo para comandar o Tricolor.

Roger chega em meio a um cenário turbulento: elenco em reconstrução, ambiente político conturbado e uma torcida que já não sabe mais o que esperar. Não foi ele quem participou das decisões que o trouxeram até o clube, nem quem assinou a saída de Hernán Crespo, nem quem conduziu as escolhas que marcaram os últimos meses.
Por isso, a lógica da responsabilidade precisa ser clara desde o início. Se o trabalho de Roger Machado der certo, o mérito será compartilhado por quem confiou nele. Se não der, o futebol costuma seguir seu roteiro conhecido: o treinador sai.
Mas a conta não pode parar ali.
Quando dirigentes assumem publicamente a autoria de uma escolha, assumem também o peso de suas consequências. Se o projeto fracassar, não será apenas um técnico que não funcionou. Será uma decisão da gestão que não se sustentou.
O São Paulo não precisa de novas apostas que terminam sempre no mesmo lugar: a troca de treinador e o reinício de um ciclo que nunca chega a começar de verdade. Precisa de estabilidade, de responsabilidade e, sobretudo, de gente disposta a responder pelas próprias escolhas. Se o trabalho de Roger Machado fracassar, Rui Costa e Rafinha precisam ter a grandeza de reconhecer o erro e assumir as consequências. Porque no São Paulo, cargo não pode ser mais importante que o clube.
Reconstrução exige coragem. Exige aceitar que até gigantes atravessam períodos difíceis. O problema é que, hoje, o clube parece incapaz de esperar. Troca processos por atalhos, planejamento por improviso.
No fim, o time segue suspenso. Como uma moeda no ar, o clube flutua entre o que foi e o que ainda pode ser, sem nunca decidir em que face quer cair.
Conteúdo produzido por Na Coruja. A reprodução total ou parcial sem citação da fonte não é autorizada.













Deixe um comentário